10 de abr de 2014

Por que não fazer um programa policial, Gilgomex?

Já me perguntaram isso algumas vezes.
Tanto ouvintes, quanto profissionais da área de comunicação.
Alguns foram ainda mais contundentes ao dizer "ou será que você não consegue?"

Quando alguém diz esta frase está querendo lhe empurrar para a atitude, para que você queira provar para Deus e o mundo que você é capaz de tal feito. Mas eu prefiro simplesmente responder que "não curto essas paradas".

Mas pra não parecer que eu não saberia, vou montar um tutorial para para um programa policial no rádio. Vamos ao passo-a-passo:

PASSO 1

1.1-O apresentador não pode falar brandamente, nunca, Jamais, DE MANEIRA ALGUMA. Ao começar o programa você poderá cumprimentar o ouvinte e lhe desejar um bom dia (ou boa tarde, ou boa noite), mas a partir daí deve despejar palavras pesadas, não necessariamente palavrões, no microfone. Ex: ...e quero aproveitar para mandar um recado para o senhor vereador, logo no começo do programa de hoje, afirmando para o NOBRE EDIL, que eu não sou criança para ficar com medo de seus comentários e de suas ameacinhas e blá blá blá... (vereador pode ser substituído por prefeito, deputado, senador, presidente de partido, presidente de bairro, enfim, alguém que represente um grande número de pessoas e pelo qual você tenha algum desafeto).
1.2-Se a rádio em que você trabalha tem contrato com a prefeitura local, você deve criticar as cidades vizinhas, criticar os oposicionistas que sempre querem criticar mas não sabem oferecer nenhuma solução, que este ou aquele partido (de oposição, claro) não tem nenhum respaldo diante da população, pode citar os números da eleição e dizer que o povo demonstrou nas urnas que eles não mereciam estar lá e etc.

1.2.1-Se a prefeitura NÃO tem contrato com a emissora, você deve agir exatamente ao contrário e sendo redundante ao citar os problemas da cidade, criticar o prefeito, secretários, falar que a saúde vai mal, que a educação (quando falar em educação, não esquecer de citar que a mesma é um pilar da sociedade, que com mais crianças na escola teremos menos bandidos nas ruas e por aí vai) está abandonada, que a limpeza da cidade (aqui fazer uma comparação ofensiva com o governante cabe bem) está suja como a sua cara, mediante a opinião pública, senhor prefeito.

1.2.2-Também é importante reforçar várias vezes que você imparcial, que se tiver algo errado, caso a rádio seja patrocinada pela prefeitura, você vai falar sim, ou, caso a prefeitura não patrocine, afirmar que quando alguma coisa boa é feita você vai elogiar.

Ainda no setor político, se você tem muito dinheiro é bom ter um político importante no bolso, e se você não tem dinheiro, é importante estar no bolso de algum político poderoso.

PASSO 2

1.1-As manchetes nunca podem ser simples. Seu programa depende muito delas e, tão importante quanto iniciar o programa com um recado forte para alguém (mesmo que seja fictícia), é prender o ouvinte com manchetes robustas, daquelas que farão o ouvinte ficar ligado na programação, e muitas vezes você ainda termina o programa sem colocar algumas no ar, para que ouvinte se ligue no outro dia.

1.2-As manchetes devem transformar uma manchete cotidiana em algo poderoso e, por vezes, asqueroso, para que o público queira ouvir, mesmo que não goste do assunto.
Um exemplo de manchete comum transportada para o universo dos programas policias popularescos:
Original: Homem alcoolizado agride esposa em (alguma cidade da Bahia, por exemplo).
Reestruturada: Machão de cozinha, pinguço, senta o porrete em mulher indefesa e população local promete linchá-lo.

Original: Acidente teria acontecido por falta de sinalização, afirma policial.
Reestruturada: Cidade está um caos por falta de sinalização, o abandono é visível, população e até a polícia estão indignados com esta pouca-vergonha.

E eu poderia citar vários outros exemplos, mas vamos para o passo seguinte.

PASSO 3

1.1-Como os apresentadores destes programas são, geralmente, mais experientes, não trabalham com a parte técnica. Portanto precisam de um operador de áudio. Sempre o operador tem que ser alguém experiente e que não ligue de ser ofendido no ar, pelo apresentador. Alguns técnicos, até brincam e erram de propósito para que o apresentador tenha assunto, quando falta pauta. Alguns apresentadores já avisam para o técnico não levar a sério, pois é só pra dar uma esquentada no programa.

1.2-Com o técnico escolhido, ou o único acessível, o apresentador deve sempre aumentar o erros e evidenciar sua insatisfação quanto ao trabalho do operador. "Já falei pra você que não é assim, será que você nunca vai aprender? Quantos anos você tem de rádio? Tudo isso? E ainda não aprendeu? Pois é ouvintes, vejam só com o que eu tenho que trabalhar, vejam onde eu fui amarrar meu burro!" (Utilizar frases feitas também é recomendado, mas isso vou citar num outro passo)

1.3-O operador de áudio deve preparar algumas brincadeirinhas, efeitos especiais, deixar algumas piadinhas ou trechos de músicas já editados para soltar na hora que o apresentador estiver entusiasmado, ou mesmo para empolgar o apresentador quando o mesmo estiver demonstrando cansaço.
No exemplo a seguir os parênteses serão os efeitos ou trechos de músicas e piadas:

-Hoje eu quero falar sobre esse cidadão, este cara, esta pessoa, que vem me ameaçando, eu não tenho medo de você (tá nervoso, vai pescar)... É, tem razão, Zé Fulano. Zé Fulano é o meu sonoplasta. Ele já percebeu como estou bravo, mas nem adianta ir pescar. (Esse é meu patrão!) Nem adianta vir com elogios, que eu não vou te dar aumento ("choro de criança"). É, você acha que se eu te der aumento vai adiantar alguma coisa? Sei bem onde você vai gastar seu dinheiro. Deixa eu contar pra dona Onça, sua mulher. (Carminha, meu bem, não me jogue na parede). É, dona Carmem, o Zé não tá fácil. Só no boteco, já tá devendo mais de 50 contos de réis. (eu bebo sim, e tô vivendo). É, vai nessa, vai nessa. Falando em bêbado, cachaceiro, pinguço sem vergonha, coloca aí a matéria do machão de cozinha, que daqui a pouco eu volto a falar desse cidadão que está me ameaçando (o bicho vai pegar) (entra a notícia gravada).

PASSO 4

1.1-Atitudes e frases clichês são necessárias ao programa. Bater com o pau na mesa (um pedaço de madeira mesmo, cassetete, ripa, qualquer coisa assim), soltar gritos, esbravejar, criticar os colegas, falar mal do patrão (neste caso, em tom de brincadeira, porque ninguém é bobo também, né), e soltar pérolas como "aqui tem café no bule", "não tenho medo de cara feia", "lugar de bandido é na cadeia", "bandido bom é bandido morto", "aqui você não vai se criar", "senta, que lá vem porrada", "mamãe não me criou com leitinho em pó não, mamei nas teta dela até os 10 anos de idade", "tenho aquilo roxo", "gostou do bandidinho, leva ele pra criar na sua casa", "estão querendo me calar, querem me calar, querem fechar minha boca? então me beijem seus safados", "minha sogra foi picada por uma cascavel, não sobreviveu a coitada... da cobra", etc.

1.2-Dizer que está sendo ameaçado, se possível até criar um profissão e um tipo de assunto para ser ameaçado, mesmo que o ameaçador não exista, é sempre um bom passo. Também é funcional, dizer que tem uma turma se reunindo para te pegar, falar que já avisou a polícia e que se algo acontecer com você, eles já sabem que é o bandido. É sempre bom demonstrar macheza, para que as donas de casa e empregadas domésticas se sintam protegidas por sua figura.

1.3-Se o apresentador for casado, deve sempre citar sua esposa como quem manda em casa. "Eu não tenho medo de polícia, de bandido, de político, só tenho medo da dona Onça, minha esposa. Da última vez que fiz algo errado fiquei todo roxo de tanta porrada que levei da muié!'

PASSO 5

1.1-Quando algum patrocinador seu for acusado de algo, você deve defendê-lo e tentar transformá-lo em vítima na situação.

Ex:
Denúncia - "Dono da empresa tal é acusado de maltratar funcionário."
Apresentador - Eu conheço este cidadão, uma pessoas honesta, que sempre cumpriu com seus deveres familiares e como empresário, nunca ouvi uma vírgula que o desabonasse, e já percebi que esta história está mal contada, pois o funcionário em questão, já brigou com outros patrões, não tem um histórico muito bom e já recebi aqui uma mensagem por sms que afirma que quando bebe fica violento com a família e com os amigos, portanto, eu não quero julgar ninguém, mas me parece que este funcionário está querendo tirar vantagem em cima do meu amigo empresário, mas não vou dizer mais nada, você ouvinte pode tirar suas próprias conclusões.

1.1.2-Se você não tem patrocínio de nenhum supermercado, por exemplo, deve criar problemas, para que algum empresário do ramo resolva lhe patrocinar, para que você dê uma apaziguada no assunto, mesmo que seja falso.
Ex:
Apresentador - Não sei o que está acontecendo. Os preços em nossa cidade estão muito maiores que as cidades grandes. Por que isso? E o pior, se você pesquisar, vai perceber que existe um cartel. Você nunca poderá pagar mais barato. No dia que a carne tá em oferta aqui, ela ainda está mais cara que os preços normais em outras cidades da região. E tem mais, já recebi diversas (como diversas, podemos ler 1 ou nenhuma) denúncias sobre produtos vencidos, sim, vencidos, que são colocados na prateleira para que o dono do mercado não tenha prejuízo. O cidadão honesto vai lá, compra, e só descobre o prejú quando chega em casa. Daí, muitas vezes fica com vergonha de voltar no estabelecimento, e fica com o bolso defasado, isso é um roubo, uma maldade com a população que já ganha pouco e tem que conviver com estes inescrupulosos senhores...
Nota: só com um comentário destes dá pra fazer um jornal inteiro, ao se repetir e ser redundante e reafirmar as redundâncias e etc.

Claro que ainda tem muita coisa para falar sobre um programa assim. Não achei que o post ia ficar tão longo.
Talvez eu até poste uma segunda parte sobre este tipo de programa, vai depender da repercussão deste texto.

Caso, você leitor, queira dicas para algum outro tipo de programa, é só comentar, aqui no blog ou no facebook mesmo, e eu criarei um tutorial também sobre outros programas de música, de solidariedade (que aliás já começo a pensar em colocar na segunda parte do texto sobre programa policial), de atividades, de premiações, especiais em datas comemorativas, etc.

10 de set de 2013

Stand up - Sobre rádio, gatos, chupeta e outras coisas...

O bom de ser radialista é que a gente nem precisa ser bonito. É só ser inteligente, simpático, ter boa conversa e saber o que vai dizer. Um dia vou ter pelo menos uma dessas qualidades.
(huehuehuehuehuehuhe)
Quero dizer, bonito e inteligente nunca.
(heuhuehuehuehuehuehuee)
Falando em gato.
(hueheuheuheuheuheuheue)
Sabem qual a diferença principal entre um gato e um cachorro?
(Nãããããããão!!!!)

Vou explicar então. Didaticamente, para até aquela loira ali, que nem sabe o que quer dizer “didaticamente”, entender.
(huheueuheuheuehueu)
Desculpe, querida. Estou brincando. É claro que você não vai entender.
(hueheuheuheuheuhuehue)
O cachorro pensa da seguinte maneira: “Esse cara me alimenta, me dá um lar, cuida de mim, me faz carinho, brinca comigo, me deixa vigiar a casa dele, eu sempre fico feliz quando o vejo... Ele deve ser Deus. Vou abanar o rabo em reverência.”
O gato pensa assim: “Esse cara me alimenta, me dá um lar, cuida de mim, me faz carinho, brinca comigo e sempre fica feliz ao me ver. Eu devo ser Deus. Ajoelhe-se diante de mim, meu filho.”
(heuheuheueuhuehuehuehuehue)
Já repararam como os gatos não nos dão moral? O cachorro fica todo contente, abanando o rabo e tal. É só fazer “fiu”. Nem precisa fazer “fiu fiu”. Já o gato... A gente chama, oferece comida, tenta fazer um carinho e nada. Ele fica lá igual uma estátua. Meu gato era tão paradão, tão paradão, que uma vez meu pai quase enterrou o bichano pensando que ele tava morto.
(heuheuheheuheuheuhehu)
Mas gato tem sete vidas. Gato lutando pra viver é coisa do Cão. Do capeta. O outro cão tenta é tirar as vidas dele.
(huehueeuheuheu)
Meu gato é que seu deu bem... A namorada dele é uma gata.
(heuehuheuheuheuheue)
Eu ia fazer outra piada de gato, mas tenho medo dele comer minha língua.
(heuhehehehu)
Se eu perder a língua, como vou me tornar um grande locutor de sucesso e ficar rico? Com a língua eu já não tô levando muita fé nisso.
(heuheuheuheuheuheuheuhe)
Locutor é preguiçoso! Ganha pra conversar! Servicinho mais fácil do mundo! Ganha sim... Mas tem que fazer programa todo dia pra ganhar um pouquinho. Tem umas meninas que eu conheço, que fazem uns 5 programas e já ganham o que eu ganho no mês. Elas fazem programa num lugar onde a cerveja custa 20 reais.
(heuheuheuheuheuheuheuheue)
Quando a gente chega no local de trabalho delas, tudo que a gente quer é tirar as calças. Mas na hora de sair, fica torcendo pra não ter que deixar até a cueca de pagamento.
(heuheuheuheuheuheuhe)
Aí uma chega: “50 reais a chupeta!” Eu digo: “Ah, pare! Comprei uma na farmácia esses dias por 3 reais.”
(huehueheuhueheuheuheueu)
Nossa! Vocês riram dessa? Piada mais sem graça...
(hueheuheuheuheh)
O que uma chupeta não faz com vocês, hein?
(heuheuheheuheuheuheh)
Tenho até medo de falar em “mamadeira”.
(hueheuheuheuheuheuheu)
Vou ter que por um semáforo aqui.
(...)
Semáforo, entenderam? Piadas de duplo sentido. Duplo sentido, semáforo, piada... Ah, ta bom... Não precisam rir.
(hueheuheuheuheuheuhe)
A gente que trabalha em rádio é acostumado a fazer piadas sobre todos os assuntos. Mas tem dia que o mau humor pega... Esses dias eu briguei com diretor, produtor, programador e locutor. Quase dei uma voadeira no locutor. E olha que o locutor era eu.
(heuheuheuheuheuhehu)
Sujeitinho marrento!
(heuheuehuehuheuheuheue)
E é tão cara-de-pau, que na hora que cheguei em casa ele tava lá. Na cara dura. Me olhando no espelho com aquela cara feia.
(heuheuheuheuhehuehueh)
Só faltava ir pra cama com a minha mulher... Mas aí já seria milagre.
(Heuheuehuehueueuehueheu)
Todo mundo brinca. Mas locutor ou locutora bonitos são seres raríssimos. Se encontrar algum, procure um posto autorizado e venda... Vale uma fortuna.
(heuheuheuheuheuheheuh)
E se encontrar um locutor parecido comigo... Por favor, desculpe-o.
(hueheuheuhuehuheue)
O locutor é uma figura interessante. Passa o dia inteiro tagarelando, falando pelos cotovelos, conta piadas, faz imitações, cantarola os sucessos do momento... Mas quando pedem pra ele gravar um textinho comercial, ou apresentar um evento... Já quer cobrar.
(hueheuheuheuhuehuehuehue)
Sou profissional, minha voz custa dinheiro, é minha ferramenta de trabalho e blá blá blá. Fica uma meia hora falando pra dizer que não vai falar nada.
(huehuehuehuehuheue)
Esses dias convidaram um amigo meu pra fazer um programa político. Perguntaram quanto ele cobrava e quando ele disse o valor, os caras responderam: “Não, amigo. Você não entendeu o tipo de programa que a gente quer. Por esse preço, a gente fecha até a zona.”
(huehuehuehuehuehuehuhe)
Sabia que ia acabar rolando mais um trocadilho com programa. Daqui a pouco vou entrar naquela discussão de locutores antigos... “O meu microfone é maior que o seu!” “O importante não é o tamanho, mas sim a qualidade de quem põe a boca...”
(heuheuheuheuheuhuehe)
Outra discussão é aquela, o mais velho diz: “Quanto tempo você tem de rádio? Eu já estou nessa profissão há mais de 50 anos...” E o mais novo diz: “Tá bom, tá bom... Então daqui a 50 anos a gente conversa de novo.”
(huehuehuehuheuheuheu)
Nota de falecimento no rádio é uma coisa triste para o locutor. Digo, falecimento sempre é triste. Esses dias eu terminei de ler uma nota de falecimento e coloquei um propaganda direto... A tal propaganda começava com a música: “Que vida boa, ouououou, que vida boa...”
(huehuehuehuheuheuheuheuhe)
Um locutor amigo meu também se estrepou numa nota de falecimento. Ele começou a ler a nota às 16:15 hs. O enterro seria às 16 horas. Aí o locutor mandou: “...seu sepultamento será... aliás, foi às 16 horas, mas se você correr...”
(heuheuheuheuhuehuehueheu)

Uma amiga, no começo da carreira, foi trollada. Trollada, gente, não atolada.
(huheuheuheuheuheuhu)
O gerente da rádio pediu pra ela ler a seguinte mensagem no ar: "Estamos fora do ar por falta de enrgia elétrica..."
(huheuhuehuheuheu)
E ela leu.
(rs)
Na hora que a rádio voltou no ar o gerente não deixou ela avisar que estava de volta no ar. Aí sim que ela ficou brava. "Puxa vida, se eu acertei aquela hora, acha que vou errar agora?"
(huheuheuhuehue)
Essa eu já contei no blog, mas um locutor muito popular foi pedir doação de sangue do tipo O+. Quando leu a nota, disse: “...e precisa-se de sangue do tipo “zero mais”.
(huehueuehuheueuhuehuehue)
Nem vou dizer das confusões que eu e mais uns 4 locutores conhecidos fizemos com as palavras gestão e gestação. Quanto político ficou grávido.
(hueheuheuhuehuehuehue)
Quatro anos? É muito tempo! Especialmente para carregar um filho na barriga...
(hueheuheuheheuheu)
Bem, gente, vocês foram lindos... Tá, digo, uma grande parte de vocês foi.
(huehuheuheuheu)
Eu poderia falar por mais algum tempo, mas sabem né... Locutor. Pra fazer mais 10 minutos de stand-up, tem que pagar a hora cheia.
(huehuheuheuhuehuehu)
Boa noite!

2 de ago de 2013

Quem canta um canto aumenta um ponto...

Nunca fui bom em cantadas. Na minha época de solteiro eu nem sabia direito o que era mulher. De fato me casei com a segunda namorada que tive. Mas quando me separei comecei a entender um pouco mais sobre a vida. Durou pouco porque acabei casando de novo. Que burro! Dá zero pra ele! Mas durante o período em que estive solteirão, livrão, alegrão, tiozão eu fazia a única coisa que sei para conquistar a mulherada (quem lê isso pensa que foi tanta "mulherada" assim), fazia rir.

Não é que eu seja o engraçadão, mas dou minhas cacetadas. Aliás, cacetadas mesmo. Quando não conseguia fazer uma mulher olhar pra mim (por motivos óbvios pra um carequinha, barrigudinho e sem carro), eu tentava chamar a atenção fazendo algum tipo de bobagem. Então não era raro eu fingir um tropeço, uma batida, uma engasgada numa palavra simples e coisas assim. Era um jeito prático. De um jeito ou de outro elas me olhavam. Daí era só partir pro ataque. Na realidade eu não podia partir muito pro ataque, pois senão as moças poderiam sair correndo.

Num período em que morei sozinho aconteceram alguns fatos que me deixavam tristonho. Eu tinha uma casa só para mim. A casa era do meu pai, mas eu morava lá com minha ex e, quando nos separamos, a casa ficou pra eu ir usando. Então meus amigos que moravam com seus pais aproveitavam a minha casa pra fazer festa. Legal é que nas primeiras festas o pessoal se dava bem e ficava com as meninas e eu só ficava com a sujeira da casa pra limpar. Até que eu entendi que o negócio não era eu tentar ser o conquistador igual os outros. Minha praia era conquistar as meninas pela risada.

Nada raro eu soltar pérolas que eu mesmo ficava com vergonha ao falar mal de mim mesmo (como se precisasse) ou fazer algum comentário que me deixaria qualquer outro vermelho. Quando entendi que a palavra tem poder de verdade. Alguns caras mais bonitinhos não precisam nem saber falar português direito pra conquistar as meninas, mas eu tinha que me esforçar muito. E quando digo "me esforçar muito", não significa insistir. Esse é um defeito também de minha parte... Eu nunca soube insistir.

Sei que as mulheres gostam de fazer um "c... doce" às vezes pra não parecerem "atiradinhas" demais. Só que no meu caso quando a mulher fazia isso, eu saía de perto e pronto. Algumas vezes acontecia da mulher vir me perguntar se eu não tinha gostado dela. Ó só! Eu tinha levado um fora e ela vinha me perguntar se eu não tinha gostado dela. Quem entende? Pra mim, se falou que não é não. Eu já não sou o cara com autoestima lá em cima. Não consigo perceber a diferença entre um homem bonito e um feio. Pra mim qualquer cara que seja magro e tenha cabelo já é mais bonito que eu. Sendo assim, se a menina dissesse que não eu já achava que é porque ela queria ficar com algum bonitinho do lugar.

Tive sim minha fase galinha, mas eram mais ciscadas do que bicadas em si. Daí quando os caras falavam "você é de rádio, a mulherada deve cair matando" (só se for no sentido literal), eu ficava ainda mais desanimado. Pois se nem sendo de rádio eu consegui chamar atenção da mulherada, significava que eu realmente estava sem moral, que nem em uma profissão em que os caras conseguem a "mulherada" eu conseguia nenhuma é porque realmente eu não estava agradando. Mas depois dum tempo fui deixando também a timidez de lado e usando as minhas táticas de fazer rir.

Falar bem de uma mulher é fácil. Mas falar mal de uma mulher e ela ainda rir disso? Isso sim era uma tática divertida. Nunca falei mal mesmo de uma mulher, eu nunca faria isso. Mas eu jogava veneno no ar e deixava-as com a pulga atrás da orelha e como você deve imaginar, uma pulga atrás da orelha deve coçar e coçar é algo que faz rir às vezes. Como eu sempre disse, eu nunca diria pra uma mulher que eu ache feia, que ela é feia. Se eu disse algo pelo menos parecido é porque eu a acho muito gata.

Ou seja, eu estava usando as armas delas contra elas. Conseguindo invadir o mundo feminino de alguma maneira. Conseguia conversar com elas sobre assuntos que os homens fogem. Conseguia falar sobre cozinha, sobre livros, sobre novelas, sobre signos e assim eu ia demonstrando todo meu conhecimento acerca dessas coisas. Mesmo quando eu não sabia de nada na verdade, mas dava uns "migué". Hoje em dia sim eu sei cozinhar, sei o que esse signo representa ou aquele outro, então fica mais fácil. Mas hoje em dia eu não preciso mais utilizar essas táticas de conquista aleatória, pois já tenho minha senhora.


Ela dá trabalho, vivemos em pé de guerra, eu também não sou o ser mais fácil de aguentar (tanto figurativa, quanto literalmente), mas acho que estamos num caminho interessante. Não sei se é o caminho certo, mas é um caminho normal. Tem a filhota mais linda do mundo do papito, cuti cuti que já tá grandona e faz nossos dias mais alegres. Mas nem por isso eu esqueço que era um tipo de negação que dava certo no campo das cantadas. Eu não fazia cantada, na verdade eu apenas zuava as cantadas que os outros utilizam e por isso eu fazia outro tipo de cantada com as mesmas existentes.